terça-feira, 1 de maio de 2012

Poesia: Em Pleno Outono / Autor: Pablo Neruda

Pouco a pouco e também por muito e muito
aconteceu-me a vida
e que insignificante é este assunto:
estas veias levaram
sangue meu que poucas vezes eu vi,
e respirei o ar de tantas regiões
sem guardar para mim nenhuma amostra
e no final das contas todos sabem:
ninguém leva nada de seus teres,
a vida tendo sido empréstimo de ossos.

O belo foi aprender a não se saciar
nem da tristeza e nem desta alegria,
esperar o talvez de uma última gota,
pedir mais para o mel e para as trevas.

Talvez fui castigado:
talvez me condenaram a ser feliz.
Fique a certeza aqui de que ninguém
passou perto de mim sem compartilhar.
Meti a colher até o cotovelo
na adversidade que não era minha,
e no padecimento que era de outros.
Não se tratou de palma ou de partido
mas sim de pouca coisa: não poder
viver nem respirar com essa sombra,
com essa sombra de outros como torres,
como árvores amargas que te enterram,
como golpes de pedra sobre os joelhos.

A tua ferida se cura com pranto,
a tua ferida se cura com canto,
mas em tua mesma porta se dessangra
a viúva, o índio, o pobre e o pescador,
e o filho do mineiro não conhece
o seu pai entre tantas queimaduras.

Muito bem, mas meu ofício
foi
a plenitude da alma:
um ai de gozo a cortar teu respirar,
um suspiro de planta derrubada
ou o quantitativo duma ação.

Gostava de crescer com a manhã,
poroso ao sol, no pleno do destino
de sol, de sal, de luz marinha, de onda
e no desenvolvimento da espuma
fundou meu coração seu movimento:
crescer com o profundo paroxismo
e morrer derramando-se na areia.

Imagem: Sabryna Keisy.